terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval e Saúde !


Escrevo hoje sobre Carnaval e Saúde ! Pois, percebo que o intuito de postar no blog, acaba por me situar na relação com o tempo, com este feriado que fica significado como uma das maiores festas populares – o carnaval. Então vocês me perguntarão : Qual a relação do carnaval com um blog intitulado porquefazeranálise? Bem, com a saúde acredito que a relação do título do blog seja mais simples de compreender, visto que situo na saúde mental.  Assim então o melhor título sería Carnaval e Saúde Mental ! Vamos seguir este caminho que a escrita abre então, sob o espaço disponibilizado neste blog...
 Considerando os escritos postados anteriormente, acredito que vocês já tenham percebido que tomo em escrita um desafio, visto que a lógica contemporânea se contrapõe à concepção de sujeito – conceito cunhado pela psicanálise. Experienciar este desafio tem sido algo que encontrei revelado numa frase de José Lutzenberger, “Por que eu sempre nado contra a corrente? Porque só assim se chega às nascentes.” Chegar ao quê sustenta esta festa do samba, festa da cultura brasileira, marca de reconhecimento de nosso país no mundo inteiro.
Considerando que nossas compreensões vão se inscrevendo e alterando com as vivências, proponho pensar então o carnaval como um fio condutor que suscita várias percepções ao longo da história de vida de cada um, desde a infância até a idade adulta. Memória que estará sendo acessada, agora talvez, através das brincadeiras de infância, de bailes infantis, confetes, serpentina e marchinhas até os interesses adultos - criando ou não personagens, encarnando fantasias pessoais travestidas de alguma fantasia feita de um pano  ou de cetim. Ou ainda, pulando e brincando  com amigos, com conhecidos ou desconhecidos.
 Percebemos assim que nos deparamos com as mais diversas experiências vividas a cada idade, desde criança,  vestindo fantasias de pano, elaborando o viver, enquanto também constituindo as fantasias psíquicas, dispositivo necessário para a estruturação do sujeito em cada um de nós. Processo que evolui na relação com quem vivemos em família, na escola, com os amigos até chegar à idade das responsabilidades adultas – passando a sustentar o próprio desejo diante da socialização, do viver com o desconhecido, com o diferente e com as responsabilidades desta maioridade.
O carnaval na infância, acompanhado pelos pais, nos espaços de diversão que neste período ficam divulgados; já enquanto  adolescentes em busca do ir com os amigos, ensaiando a sonhada independização, muitas vezes achando uma idiotice aquelas fantasias de contos de fadas, azarando e vestindo algo bem fora prá alcançar o olhar da diferença. Lidando com a sexualidade, com o desejo,  ficando ou namorando – muitas vezes diante de olhares incrédulos de que o tempo passou para além da infância.  Como adultos  parece que o contato com o carnaval se encontra divulgado, relacionado à sexualidade, à sensualidade, ao consumo de algum alucinógeno. Esclareço que utilizarei aqui a palavra alucinógeno para dizer de algo ingerido e que alucina em alguma dimensão e afasta da realidade. Alucinógenos estes desde os socialmente aceitos, como a cerveja muito consumida e por isto muito produzida; aos ilícitos que circulam de forma velada em quantidade,  porque consumidos em  quantidade e de forma velada.
Outro encontro com o carnaval, paralelo ou não ao consumo de algum alucinógeno, constitui-se na experiência de retomar um ciclo já talvez vivenciado, ou seja, levar agora os  filhos para os bailes infantis, reunir amigos prá pular num dos bailes da cidade ou desfilar em algum bloco. Ou ainda, nesta trajetória do viver, da infância à idade adulta, participar da escola de samba da comunidade. Exercícios, situados enquanto possíveis de manifestação social de nossas fantasias, de nossa pulsão de morte e de vida, inerentes à nossa constituição subjetiva de sujeitos.
Encontro assim algo importante e que me fará explicitar porque acredito que esta festa popular traz possibilidades de diversão e de uma presentificação no ato de revelar, através da arte de cantar, de representar, de desfilar - monstros e personagens da cultura. Deslocando o fantasiar em cada um, para o contato com o social, esclarecendo que não falo aqui de uma fantasia de pano. Mas, de uma aquisição do sujeito na relação com o outro. Aquisição que indica o resultado das vivências com as quais a criança teve contato, o investimento do amor, das palavras e das histórias que possibilitaram à este adquirir o fantasiar. Recurso que permite saídas, inclusive em momentos problemáticos, talvez até saídas originais, nunca antes pensadas para apropriar-se do viver  de cada dia. Assim, espero que esteja conseguindo revelar o que penso do carnaval e de que este pode ser uma experiência rica em divertimento e de possibilidades de contato com o exercício do brincar.
Façamos também referência à outros fatores que encontramos na sustentação desta trajetória do viver  ao longo de anos, conforme pretendido com o escrito acima, rememorando de alguma forma algo da trajetória da história de vida. E, agora acessar que enquanto nossa vida se desenvolve fica por diversas vezes reforçado, no cotidiano de nossos lares, através da mídia,  de que aquela "cervejinha ou cervejão" fará o acesso às mais reprimidas fantasias, fortalecendo nosso narcisismo através do poder de ser o que se sonha ou o que é repetidas vezes propagandeado pela criação publicitária.  Empresas que descobriram que atiçar as fantasias, oferecendo o produto que materializa a conquista destas, está ao alcance do bolso e do desejo castrado ou não de cada um.
Nesta forma de compreender, permito-me então escrever sobre a visão que tenho do carnaval atualmente, considerando a saúde mental e o conceito de sujeito entendido através da psicanálise. Acredito que uma festa que permita os acessos às fantasias de cada um, envolvendo a criação é algo completamente salutar. Mas, como sei que o exercício do fantasiar parece que tem sido tomado deveras pelo capitalismo, acredito que os alucinógenos farão os cofres das empresas lícitas ou ilícitas “bombar”. Pois, o lugar que a mídia ocupa nos lares hoje é de muito poder. E, em nenhum momento considero que as escolhas dos usuários, tanto de alucinógenos lícitos, quanto ilícitos, seja algo sem explicação ou sem sentido na utilização destes. Visto que considero o desejo que está velado aí, e é nesta relação em que o alucinógeno ganha espaço. Arrisco dizer que o alucinógeno que entra na vida do sujeito tem relação direta com o limiar das relações deste – seja entendido que as relações estão permeadas por pulsões tanto de vida, quanto  de morte, basta recordar o apelo da propaganda “Se beber não dirija, se dirigir não beba”, alerta do Ministério da Saúde”.
                Assim, quando alguém disser que quem mais ganha nesta festa popular  são as empresas que sustentam as propagandas de cerveja, ou grandes empresários, acho que a partir de um raciocínio capitalista, talvez sim. Mas, na lógica que tentei elucidar aqui, quem na verdade mais ganha, é aquele que representa sua comunidade, a história da vila, do bairro e que ao longo do ano e durante a festa se divertiu e garantiu uma conexão com a metaforização de seu desejo relançando o sentido de seu próprio viver e da cultura local.
   Parabéns aos foliões, sóbrios ou nem tanto, que se sentiram plenos por ter acessado e encontrado um sentido próprio na sua folia, com sua fantasia e em seu fantasiar !!!