domingo, 18 de julho de 2021

Tem perguntado à sua alma do que sofre seu corpo ?


O quê você acha: Seu corpo tem alma? A sua alma tem sido questionada sobre o seu corpo?
         
Desde minha última postagem tenho me envolvido com o tema que pretendo trazer para reflexão, num exercício que permita alteridade, além de instigar para uma forma outra de percepção dos males que afligem o humano, as doenças que preocupam na busca da cura. Busca esta que já foi comentada aqui anteriormente, acerca das escolhas da contemporaneidade em que o plano de saúde fica entendido através da sustentação de convênios. Aponto isto para chamar atenção para a forma como nos posicionamos diante das escolhas que fazemos para sustentar nossa saúde. Se estas tocam nossas escolhas, aquilo que fazemos no cotidiano ou não.
Percebo haver uma contratação velada, um contrato social e contemporâneo para que os sujeitos em nós fiquem intactos em prol do gozo de utilizar várias saídas, mas invariavelmente sem que atinjam uma escuta ao sujeito em cada um. Questões sempre complexas que ficarão postas aqui e que testarão aqueles que acompanham a leitura à questionar-se, mas também terão, pelo menos é o que tento daqui tornar simples, o tanto quanto possível algo que direcione para um avanço dos cuidados para com a saúde.
Durante este mês então, em que não publiquei no blog, fui buscar reduzir ou atiçar ainda mais minha ignorância. Brinco, pois realizei várias leituras e a pesquisa  traz à tona múltiplas dúvidas e também achados, dependendo muito da posição de quem toma o assunto. O diálogo entre corpo e mente, já vem sendo objeto de estudos há milhares de anos em culturas diversas. E, percebo que a ciência por seus avanços tecnológicos seduz, numa promessa de cura pela decifração através da análise objetiva dos dados do corpo pesquisados. Porém a alma, a psique, a subjetividade do sujeito nos tratamentos fica na maior parte das vezes sem cuidados de escuta à sua discursividade. Negando a presença dos achados clínicos na escuta à estruturação da linguagem nos pacientes. Estes pacientes de tão “pacientes” que são não trazem questão, não “se” questionam, procuram outro, em geral um profissional que lhes responda através de objetividades.
Quando opto por aqui sacudir e chegar à alguma forma distinta de pensar, é porque optei por escutar minha subjetividade e o turbilhão de atravessamentos e emoções presentes no cotidiano da experiência do viver. Assim, a escolha de ter sustentado a própria análise e o estudo clínico através da leitura de profissionais que produziram achados clínicos específicos da história de sujeitos que acompanharam em análise, é que hoje aponto a diferença de porquefazeranálise. Situadas então minhas balizas proponho que realizar a escuta de pessoas com doenças presentes intergeracionalmente nas famílias, as ditas doenças cronificadas que repetem alguns sintomas ao longo de vários anos, são material para escuta analítica. Porém, o que encontro na literatura pesquisada vem responder o porquê deste perfil de pessoas não chegar ao analista.
          Roger Wartel(1990) lança a pergunta “Que esperam de nós os médicos?” tendo em vista que a psicossomática ficaria associada àqueles casos rebeldes à etiologia, quando não haveria explicação para a lesão de determinado órgão. Assim, o médico estaria numa posição de não esperar nada nesta posição. E o paciente, a pessoa acometida de doença em algum órgão, também não tendo uma explicação plausível da etiologia não pediria nada ao analista. Assim, a hilária ou trágica situação que se daria então é que tanto médicos, quanto pacientes “onde eles nos esperam, isto é, no lugar onde eles não sabem nem o que esperar”. Wartel(1990) ainda coloca que deveríamos então endossar essa fraqueza irredutível da não-resposta, enquanto uma posição ética. Ou seja, posicionarmo-nos eticamente de que há uma não-resposta nossa. Porém, há a possibilidade colocada por Alain Merlet (1990)“não sendo mais uma questão de situar a psicossomática como uma doença, mas como um modo de responder que derroga à ética que o dispositivo analítico em princípio deve lembrar àquele que fala, sobre um divã.”
          Wartel retoma Fiessenger de 1908 através de um enunciado que esclarece de uma forma simples que “o doente não defende mais seu fígado: defende-se de seu fígado”. Algo que particularmente me deixa surpresa, ou seja, algo do órgão se volta contra a pessoa acometida da doença. Mas, me faz escutar que algo se contrapõe, quando a “defesa à” inerente ao órgão que auxilia a homeostase do corpo, se transforma colocando o corpo a “defender-se deste”, tomado num funcionamento que leva à uma destruição do órgão.  Algo sutil aí de uma mudança de fronteira! Um órgão até então tido como funcionando a favor da vida, testemunha no corpo uma passagem em que opera algo da morte, como nos casos extremos como o câncer. Ou, o comer que seria para sustentar a vida, e passa a levar alguns à morbidade quando não há reconhecimento de limites em sua ingesta.
          No trabalho que venho realizando a alguns anos de escuta à pessoas diagnosticadas de obesidade severa ou mórbida, enquanto que realizam tratamentos com técnicas mais ou menos invasivas do corpo,  percebo que em seu discurso se desdobra inicialmente algo que inscreve literalmente o alimento como desejo  e  necessidade. Há uma confusão em relação à se a fome que sentem é por necessidade fisiológica ou por desejo de repetição de algo que os captura por haver ali algo de outra ordem. Algo de uma demarcação de passagem de afetividade que acompanha o alimento, ou ainda, o alimento marca a passagem afetiva ao outro nas relações que este estabelece. Merlet (1990) recorta uma explicação de Lacan quando este diz de uma “fixação do gozo pela interferência de uma necessidade sobre o desejo, isto seria como uma espécie de curto-circuito corpo-organismo no ponto de não clivagem”. E, nesta mescla indeterminada necessidade ou desejo de comer, o órgão passaria a não determinar deveres. Entendo com isto que a fome, por exemplo, não tem o dever de ficar saciada, visto que está arraigada a um desejo não castrado.
          Recordo de uma filmagem realizada pelo Lydia Coriat e utilizada em um dos grupos de estudos de psicossomática do qual participo já há alguns anos. Momento em que todos presentes  sentiram-se muito angustiados quando uma mãe que se mostrava muito preocupada em bem realizar os cuidados para com seu filho, porém não conseguia decifrar os sinais de limite que este lhe passava. A criança tinha talvez não mais de um aninho de idade, estava sentada numa cadeirinha própria e tinha colocado à sua frente um prato transbordante de sopa ou lentilhas. A medida que a mãe o alimentava, mostrando-se muito preocupada em cumprir esta tarefa materna, ao escutá-lo emitindo sons e girando seu rostinho para desviar da colher, passa a referir que ele não seja mau e que coma tudo. Após, conseguir então dar ao filho mais da metade de uma super porção para adulto, sem acolher os sinais deste como já estar satisfeito, lhe oferece ainda uma mamadeira, dando a entender que “se não comeu “tudo” ( da porção de um adulto ) foi porque talvez não tenha apreciado o prato, e assim a mamadeira cairia bem para que se sentisse satisfeito.
          Paralelamente à escuta de adultos obesos mórbidos, cronificados por uma ingesta excessiva se comparada às suas necessidades fisiológicas, visível pela massa de seus corpos que excede sempre suas necessidades energéticas, referiam que o estômago tem de ficar cheio para que a satisfação dê-lhes o sinal de parar. Prováveis memórias do infans, marcados por cuidadores que não tinham a capacidade de alimentá-los marcando-lhes seus próprios limites. A satisfação ficava marcada, igualada à um comer tudo que o adulto supunha ser o suficiente e não em terem lidos seus sinais infantis e sutis - visto que os bebês ainda não tem a apropriação da palavra. A saciedade da fome fica referenciada ao quê e à quanto satisfazia o adulto.
          Françoise Josselin (1990) refere Lacan no que este diz do efeito psicossomático “o corpo é levado a escrever alguma coisa da ordem do número” e refere haver a necessidade de abordar a psicossomática pela revelação do gozo específico que há nessa fixação. Ou seja, uma alienação que impeliria o sujeito a tomar esse lugar do objeto a, o objeto causa de desejo, o fora de corpo de Outro. E, nos fenômenos psicossomáticos o objeto a não emergiria, aparecendo sob forma incrustada no corpo, no órgão atestando uma gelificação do significante.
          Jean Guir (1990 ) menciona a conferência de Genebra em que Lacan compara o doente com fenômeno psicossomático a um hieróglifo e associa a lesão  psicossomática ao traço unário. O traço unário como na origem de um saber sobre o corpo. Guir ainda situa o narcisismo primário e o auto-erotismo caracterizando o fenômeno psicossomático. Quando o masoquismo originário estaria como um componente da libido, mantendo sempre como objeto o corpo próprio do indivíduo. A pulsão de cura se chocaria com o masoquismo primordial. Aí  novamente algo que se organiza contrário ao sujeito, uma resistência que Lacan faz lembrar de que “a vida não quer sarar”. E a reação terapêutica, mais especificamente a reação terapêutica negativa, fundaria sobre a necessidade de punição por uma potência parental. E, Guir finaliza “Essa marca do sujeito poderá, na análise, ser objeto de um relance transferencial”.
          Uma incógnita que se faz presente nestes processos de pré-ocupação com a saúde, gira em torno de uma questão simples e complexa que me chama atenção : “O que faz com que a pessoa se sinta mais segura recorrendo à uma cirurgia, corte no real, à aliar à busca de cura a abertura de espaço para ter a escuta de alguém que lhe permita transitar por sua história e tecer alguma compreensão do porquê de uma doença lhe atingir algum órgão?” A visão de que a pessoa desenvolve  algo em seu corpo onde uma função, uma funcionalidade fica negada, não faz questão. Por que o corpo passou a produzir a doença diagnosticada? Assim, pensar em porque há algo que se desenvolve em si a partir de sua história inter e intra-familiar é posto num saco sem fundo, na justificativa de que é genético. Escape que nos salva de abordar o quê pode haver em nosso posicionamento que faça com que o corpo desenvolva aquilo que talvez outro familiar não tenha sido depositário e que não fica relevado. Ou, talvez até fique como questão, porém levado para o médico que explica e responde com a representação de seu discurso, que não poderia ser outro, visto que se apóia na ciência, objetivando os achados científicos. Que por vezes ficam justificados naquele saco sem fundo da genética. Dupla negação, do paciente e do médico, de que alguém possa acompanhar o paciente a ouvir-se e à suas escolhas, às representações que tem de si.
          A posição ética do psicanalista é mencionar então que há uma não-resposta em sua posição, o que não quer dizer que não há possibilidade de tratamento e sim de que fica posta uma abertura de escutar ao paciente e suas associações, para tecer como à uma colcha, a partir do fio da fala deste, para alcançar a constituição de seus entendimentos acerca de si e valoração de sua história. Ponto que fica acolhido pela medicina também, mas não há na devolução do médico a técnica da escuta ao sujeito, o médico escuta o paciente para curar a doença do corpo. E, a alma fica abandonada, sem ser questionada do quê sabe sobre o funcionamento de seu corpo, sempre envolto em relacionamentos e emoções diárias singulares e que ficam em geral negadas nestes tratamentos da atualidade.
          E, então, o que você tem a dizer: Seu corpo tem alma? Entre os seus familiares as doenças do corpo são questionadas à alma? O quê você sentiu enquanto uma doença se instalou em algum familiar ou mesmo em você? Quais emoções associadas estão aí, que emoções emergiram ou sumiram com o diagnóstico de uma doença recorrente na família e que pode ficar ativada em seu corpo ou de algum familiar? Talvez aqueles que se ocupem com estas questões, a serem também escutadas no sujeito em cada um, sendo aliadas aos tratamentos tradicionais ou aos tratamentos de medicina integrada, tenham resultados mais qualitativos na recuperação do saber sobre si e sobre a doença em direção à cura almejada.
          Blog: porquefazeranálise

Referência Bibliográfica:

          Wartel, Roger e outros. Psicossomática e Psicanálise. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, RJ, 1990.

domingo, 17 de abril de 2011

O quê você acha: Seu corpo tem alma? A sua alma tem sido questionada sobre o seu corpo?


Desde minha última postagem tenho me envolvido com o tema que pretendo trazer para reflexão, num exercício que permita alteridade, além de instigar para uma forma outra de percepção dos males que afligem o humano, as doenças que preocupam na busca da cura. Busca esta que já foi comentada aqui anteriormente, acerca das escolhas da contemporaneidade em que o plano de saúde fica entendido através da sustentação de convênios. Aponto isto para chamar atenção para a forma como nos posicionamos diante das escolhas que fazemos para sustentar nossa saúde. Se estas tocam nossas escolhas, aquilo que fazemos no cotidiano ou não.

Percebo haver uma contratação velada, um contrato social e contemporâneo para que os sujeitos em nós fiquem intactos em prol do gozo de utilizar várias saídas, mas invariavelmente sem que atinjam uma escuta ao sujeito em cada um. Questões sempre complexas que ficarão postas aqui e que testarão aqueles que acompanham a leitura à questionar-se, mas também terão, pelo menos é o que tento daqui tornar simples, o tanto quanto possível algo que direcione para um avanço dos cuidados para com a saúde.

Durante este mês então, em que não publiquei no blog, fui buscar reduzir ou atiçar ainda mais minha ignorância. Brinco, pois realizei várias leituras e a pesquisa traz à tona múltiplas dúvidas e também achados, dependendo muito da posição de quem toma o assunto. O diálogo entre corpo e mente, já vem sendo objeto de estudos há milhares de anos em culturas diversas. E, percebo que a ciência por seus avanços tecnológicos seduz, numa promessa de cura pela decifração através da análise objetiva dos dados do corpo pesquisados. Porém a alma, a psique, a subjetividade do sujeito nos tratamentos fica na maior parte das vezes sem cuidados de escuta à sua discursividade. Negando a presença dos achados clínicos na escuta à estruturação da linguagem nos pacientes. Estes pacientes de tão “pacientes” que são não trazem questão, não “se” questionam, procuram outro, em geral um profissional que lhes responda através de objetividades.

Quando opto por aqui sacudir e chegar à alguma forma distinta de pensar, é porque optei por escutar minha subjetividade e o turbilhão de atravessamentos e emoções presentes no cotidiano da experiência do viver. Assim, a escolha de ter sustentado a própria análise e o estudo clínico através da leitura de profissionais que produziram achados clínicos específicos da história de sujeitos que acompanharam em análise, é que hoje aponto a diferença de porquefazeranálise. Situadas então minhas balizas proponho que realizar a escuta de pessoas com doenças presentes intergeracionalmente nas famílias, as ditas doenças cronificadas que repetem alguns sintomas ao longo de vários anos, são material para escuta analítica. Porém, o que encontro na literatura pesquisada vem responder o porquê deste perfil de pessoas não chegar ao analista.

Roger Wartel(1990) lança a pergunta “Que esperam de nós os médicos?” tendo em vista que a psicossomática ficaria associada àqueles casos rebeldes à etiologia, quando não haveria explicação para a lesão de determinado órgão. Assim, o médico estaria numa posição de não esperar nada nesta posição. E o paciente, a pessoa acometida de doença em algum órgão, também não tendo uma explicação plausível da etiologia não pediria nada ao analista. Assim, a hilária ou trágica situação que se daria então é que tanto médicos, quanto pacientes “onde eles nos esperam, isto é, no lugar onde eles não sabem nem o que esperar”. Wartel(1990) ainda coloca que deveríamos então endossar essa fraqueza irredutível da não-resposta, enquanto uma posição ética. Ou seja, posicionarmo-nos eticamente de que há uma não-resposta nossa. Porém, há a possibilidade colocada por Alain Merlet (1990)“não sendo mais uma questão de situar a psicossomática como uma doença, mas como um modo de responder que derroga à ética que o dispositivo analítico em princípio deve lembrar àquele que fala, sobre um divã.”

Wartel retoma Fiessenger de 1908 através de um enunciado que esclarece de uma forma simples que “o doente não defende mais seu fígado: defende-se de seu fígado”. Algo que particularmente me deixa surpresa, ou seja, algo do órgão se volta contra a pessoa acometida da doença. Mas, me faz escutar que algo se contrapõe, quando a “defesa à” inerente ao órgão que auxilia a homeostase do corpo, se transforma colocando o corpo a “defender-se deste”, tomado num funcionamento que leva à uma destruição do órgão. Algo sutil aí de uma mudança de fronteira! Um órgão até então tido como funcionando a favor da vida, testemunha no corpo uma passagem em que opera algo da morte, como nos casos extremos como o câncer. Ou, o comer que seria para sustentar a vida, e passa a levar alguns à morbidade quando não há reconhecimento de limites em sua ingesta.

No trabalho que venho realizando a alguns anos de escuta à pessoas diagnosticadas de obesidade severa ou mórbida, enquanto que realizam tratamentos com técnicas mais ou menos invasivas do corpo, percebo que em seu discurso se desdobra inicialmente algo que inscreve literalmente o alimento como desejo e necessidade. Há uma confusão em relação à se a fome que sentem é por necessidade fisiológica ou por desejo de repetição de algo que os captura por haver ali algo de outra ordem. Algo de uma demarcação de passagem de afetividade que acompanha o alimento, ou ainda, o alimento marca a passagem afetiva ao outro nas relações que este estabelece. Merlet (1990) recorta uma explicação de Lacan quando este diz de uma “fixação do gozo pela interferência de uma necessidade sobre o desejo, isto seria como uma espécie de curto-circuito corpo-organismo no ponto de não clivagem”. E, nesta mescla indeterminada necessidade ou desejo de comer, o órgão passaria a não determinar deveres. Entendo com isto que a fome, por exemplo, não tem o dever de ficar saciada, visto que está arraigada a um desejo não castrado.

Recordo de uma filmagem realizada pelo Lydia Coriat e utilizada em um dos grupos de estudos de psicossomática do qual participo já há alguns anos. Momento em que todos presentes sentiram-se muito angustiados quando uma mãe que se mostrava muito preocupada em bem realizar os cuidados para com seu filho, porém não conseguia decifrar os sinais de limite que este lhe passava. A criança tinha talvez não mais de um aninho de idade, estava sentada numa cadeirinha própria e tinha colocado à sua frente um prato transbordante de sopa ou lentilhas. A medida que a mãe o alimentava, mostrando-se muito preocupada em cumprir esta tarefa materna, ao escutá-lo emitindo sons e girando seu rostinho para desviar da colher, passa a referir que ele não seja mau e que coma tudo. Após, conseguir então dar ao filho mais da metade de uma super porção para adulto, sem acolher os sinais deste como já estar satisfeito, lhe oferece ainda uma mamadeira, dando a entender que “se não comeu “tudo” ( da porção de um adulto ) foi porque talvez não tenha apreciado o prato, e assim a mamadeira cairia bem para que se sentisse satisfeito.

Paralelamente à escuta de adultos obesos mórbidos, cronificados por uma ingesta excessiva se comparada às suas necessidades fisiológicas, visível pela massa de seus corpos que excede sempre suas necessidades energéticas, referiam que o estômago tem de ficar cheio para que a satisfação dê-lhes o sinal de parar. Prováveis memórias do infans, marcados por cuidadores que não tinham a capacidade de alimentá-los marcando-lhes seus próprios limites. A satisfação ficava marcada, igualada à um comer tudo que o adulto supunha ser o suficiente e não em terem lidos seus sinais infantis e sutis - visto que os bebês ainda não tem a apropriação da palavra. A saciedade da fome fica referenciada ao quê e à quanto satisfazia o adulto.

Françoise Josselin (1990) refere Lacan no que este diz do efeito psicossomático “o corpo é levado a escrever alguma coisa da ordem do número” e refere haver a necessidade de abordar a psicossomática pela revelação do gozo específico que há nessa fixação. Ou seja, uma alienação que impeliria o sujeito a tomar esse lugar do objeto a, o objeto causa de desejo, o fora de corpo de Outro. E, nos fenômenos psicossomáticos o objeto a não emergiria, aparecendo sob forma incrustada no corpo, no órgão atestando uma gelificação do significante.

Jean Guir (1990 ) menciona a conferência de Genebra em que Lacan compara o doente com fenômeno psicossomático a um hieróglifo e associa a lesão psicossomática ao traço unário. O traço unário como na origem de um saber sobre o corpo. Guir ainda situa o narcisismo primário e o auto-erotismo caracterizando o fenômeno psicossomático. Quando o masoquismo originário estaria como um componente da libido, mantendo sempre como objeto o corpo próprio do indivíduo. A pulsão de cura se chocaria com o masoquismo primordial. Aí novamente algo que se organiza contrário ao sujeito, uma resistência que Lacan faz lembrar de que “a vida não quer sarar”. E a reação terapêutica, mais especificamente a reação terapêutica negativa, fundaria sobre a necessidade de punição por uma potência parental. E, Guir finaliza “Essa marca do sujeito poderá, na análise, ser objeto de um relance transferencial”.

Uma incógnita que se faz presente nestes processos de pré-ocupação com a saúde, gira em torno de uma questão simples e complexa que me chama atenção : “O que faz com que a pessoa se sinta mais segura recorrendo à uma cirurgia, corte no real, à aliar à busca de cura a abertura de espaço para ter a escuta de alguém que lhe permita transitar por sua história e tecer alguma compreensão do porquê de uma doença lhe atingir algum órgão?” A visão de que a pessoa desenvolve algo em seu corpo onde uma função, uma funcionalidade fica negada, não faz questão. Por que o corpo passou a produzir a doença diagnosticada? Assim, pensar em porque há algo que se desenvolve em si a partir de sua história inter e intra-familiar é posto num saco sem fundo, na justificativa de que é genético. Escape que nos salva de abordar o quê pode haver em nosso posicionamento que faça com que o corpo desenvolva aquilo que talvez outro familiar não tenha sido depositário e que não fica relevado. Ou, talvez até fique como questão, porém levado para o médico que explica e responde com a representação de seu discurso, que não poderia ser outro, visto que se apóia na ciência, objetivando os achados científicos. Que por vezes ficam justificados naquele saco sem fundo da genética. Dupla negação, do paciente e do médico, de que alguém possa acompanhar o paciente a ouvir-se e à suas escolhas, às representações que tem de si.

A posição ética do psicanalista é mencionar então que há uma não-resposta em sua posição, o que não quer dizer que não há possibilidade de tratamento e sim de que fica posta uma abertura de escutar ao paciente e suas associações, para tecer como à uma colcha, a partir do fio da fala deste, para alcançar a constituição de seus entendimentos acerca de si e valoração de sua história. Ponto que fica acolhido pela medicina também, mas não há na devolução do médico a técnica da escuta ao sujeito, o médico escuta o paciente para curar a doença do corpo. E, a alma fica abandonada, sem ser questionada do quê sabe sobre o funcionamento de seu corpo, sempre envolto em relacionamentos e emoções diárias singulares e que ficam em geral negadas nestes tratamentos da atualidade.

E, então, o que você tem a dizer: Seu corpo tem alma? Entre os seus familiares as doenças do corpo são questionadas à alma? O quê você sentiu enquanto uma doença se instalou em algum familiar ou mesmo em você? Quais emoções associadas estão aí, que emoções emergiram ou sumiram com o diagnóstico de uma doença recorrente na família e que pode ficar ativada em seu corpo ou de algum familiar? Talvez aqueles que se ocupem com estas questões, a serem também escutadas no sujeito em cada um, sendo aliadas aos tratamentos tradicionais ou aos tratamentos de medicina integrada, tenham resultados mais qualitativos na recuperação do saber sobre si e sobre a doença em direção à cura almejada.

Blog: porquefazeranálise



Referência Bibliográfica:



Wartel, Roger e outros. Psicossomática e Psicanálise. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, RJ, 1990.

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval e Saúde !


Escrevo hoje sobre Carnaval e Saúde ! Pois, percebo que o intuito de postar no blog, acaba por me situar na relação com o tempo, com este feriado que fica significado como uma das maiores festas populares – o carnaval. Então vocês me perguntarão : Qual a relação do carnaval com um blog intitulado porquefazeranálise? Bem, com a saúde acredito que a relação do título do blog seja mais simples de compreender, visto que situo na saúde mental.  Assim então o melhor título sería Carnaval e Saúde Mental ! Vamos seguir este caminho que a escrita abre então, sob o espaço disponibilizado neste blog...
 Considerando os escritos postados anteriormente, acredito que vocês já tenham percebido que tomo em escrita um desafio, visto que a lógica contemporânea se contrapõe à concepção de sujeito – conceito cunhado pela psicanálise. Experienciar este desafio tem sido algo que encontrei revelado numa frase de José Lutzenberger, “Por que eu sempre nado contra a corrente? Porque só assim se chega às nascentes.” Chegar ao quê sustenta esta festa do samba, festa da cultura brasileira, marca de reconhecimento de nosso país no mundo inteiro.
Considerando que nossas compreensões vão se inscrevendo e alterando com as vivências, proponho pensar então o carnaval como um fio condutor que suscita várias percepções ao longo da história de vida de cada um, desde a infância até a idade adulta. Memória que estará sendo acessada, agora talvez, através das brincadeiras de infância, de bailes infantis, confetes, serpentina e marchinhas até os interesses adultos - criando ou não personagens, encarnando fantasias pessoais travestidas de alguma fantasia feita de um pano  ou de cetim. Ou ainda, pulando e brincando  com amigos, com conhecidos ou desconhecidos.
 Percebemos assim que nos deparamos com as mais diversas experiências vividas a cada idade, desde criança,  vestindo fantasias de pano, elaborando o viver, enquanto também constituindo as fantasias psíquicas, dispositivo necessário para a estruturação do sujeito em cada um de nós. Processo que evolui na relação com quem vivemos em família, na escola, com os amigos até chegar à idade das responsabilidades adultas – passando a sustentar o próprio desejo diante da socialização, do viver com o desconhecido, com o diferente e com as responsabilidades desta maioridade.
O carnaval na infância, acompanhado pelos pais, nos espaços de diversão que neste período ficam divulgados; já enquanto  adolescentes em busca do ir com os amigos, ensaiando a sonhada independização, muitas vezes achando uma idiotice aquelas fantasias de contos de fadas, azarando e vestindo algo bem fora prá alcançar o olhar da diferença. Lidando com a sexualidade, com o desejo,  ficando ou namorando – muitas vezes diante de olhares incrédulos de que o tempo passou para além da infância.  Como adultos  parece que o contato com o carnaval se encontra divulgado, relacionado à sexualidade, à sensualidade, ao consumo de algum alucinógeno. Esclareço que utilizarei aqui a palavra alucinógeno para dizer de algo ingerido e que alucina em alguma dimensão e afasta da realidade. Alucinógenos estes desde os socialmente aceitos, como a cerveja muito consumida e por isto muito produzida; aos ilícitos que circulam de forma velada em quantidade,  porque consumidos em  quantidade e de forma velada.
Outro encontro com o carnaval, paralelo ou não ao consumo de algum alucinógeno, constitui-se na experiência de retomar um ciclo já talvez vivenciado, ou seja, levar agora os  filhos para os bailes infantis, reunir amigos prá pular num dos bailes da cidade ou desfilar em algum bloco. Ou ainda, nesta trajetória do viver, da infância à idade adulta, participar da escola de samba da comunidade. Exercícios, situados enquanto possíveis de manifestação social de nossas fantasias, de nossa pulsão de morte e de vida, inerentes à nossa constituição subjetiva de sujeitos.
Encontro assim algo importante e que me fará explicitar porque acredito que esta festa popular traz possibilidades de diversão e de uma presentificação no ato de revelar, através da arte de cantar, de representar, de desfilar - monstros e personagens da cultura. Deslocando o fantasiar em cada um, para o contato com o social, esclarecendo que não falo aqui de uma fantasia de pano. Mas, de uma aquisição do sujeito na relação com o outro. Aquisição que indica o resultado das vivências com as quais a criança teve contato, o investimento do amor, das palavras e das histórias que possibilitaram à este adquirir o fantasiar. Recurso que permite saídas, inclusive em momentos problemáticos, talvez até saídas originais, nunca antes pensadas para apropriar-se do viver  de cada dia. Assim, espero que esteja conseguindo revelar o que penso do carnaval e de que este pode ser uma experiência rica em divertimento e de possibilidades de contato com o exercício do brincar.
Façamos também referência à outros fatores que encontramos na sustentação desta trajetória do viver  ao longo de anos, conforme pretendido com o escrito acima, rememorando de alguma forma algo da trajetória da história de vida. E, agora acessar que enquanto nossa vida se desenvolve fica por diversas vezes reforçado, no cotidiano de nossos lares, através da mídia,  de que aquela "cervejinha ou cervejão" fará o acesso às mais reprimidas fantasias, fortalecendo nosso narcisismo através do poder de ser o que se sonha ou o que é repetidas vezes propagandeado pela criação publicitária.  Empresas que descobriram que atiçar as fantasias, oferecendo o produto que materializa a conquista destas, está ao alcance do bolso e do desejo castrado ou não de cada um.
Nesta forma de compreender, permito-me então escrever sobre a visão que tenho do carnaval atualmente, considerando a saúde mental e o conceito de sujeito entendido através da psicanálise. Acredito que uma festa que permita os acessos às fantasias de cada um, envolvendo a criação é algo completamente salutar. Mas, como sei que o exercício do fantasiar parece que tem sido tomado deveras pelo capitalismo, acredito que os alucinógenos farão os cofres das empresas lícitas ou ilícitas “bombar”. Pois, o lugar que a mídia ocupa nos lares hoje é de muito poder. E, em nenhum momento considero que as escolhas dos usuários, tanto de alucinógenos lícitos, quanto ilícitos, seja algo sem explicação ou sem sentido na utilização destes. Visto que considero o desejo que está velado aí, e é nesta relação em que o alucinógeno ganha espaço. Arrisco dizer que o alucinógeno que entra na vida do sujeito tem relação direta com o limiar das relações deste – seja entendido que as relações estão permeadas por pulsões tanto de vida, quanto  de morte, basta recordar o apelo da propaganda “Se beber não dirija, se dirigir não beba”, alerta do Ministério da Saúde”.
                Assim, quando alguém disser que quem mais ganha nesta festa popular  são as empresas que sustentam as propagandas de cerveja, ou grandes empresários, acho que a partir de um raciocínio capitalista, talvez sim. Mas, na lógica que tentei elucidar aqui, quem na verdade mais ganha, é aquele que representa sua comunidade, a história da vila, do bairro e que ao longo do ano e durante a festa se divertiu e garantiu uma conexão com a metaforização de seu desejo relançando o sentido de seu próprio viver e da cultura local.
   Parabéns aos foliões, sóbrios ou nem tanto, que se sentiram plenos por ter acessado e encontrado um sentido próprio na sua folia, com sua fantasia e em seu fantasiar !!!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Acessos do mês.. #?!

Bem, tenho a considerar nesta nova postagem e nesta experiência de escrever e publicar no territótrio das redes sociais,  que quando me coloco a escrever tenho por desejo, estar escrevendo para alguém que leia. E, neste domínio do blog, tenho elementos que o leitor não tem, ou seja, estatísticas deste mecanismo que me proporcionam  neste final de mês dados atualizados. Assim, como também os tem o leitor, o internauta - elementos que não ficam perceptíveis para quem escreve. Neste exercício que acaba sendo a escrita e postagem, decidi não abrir mão de minhas premissas. Ou seja, visto que me considero composta pelas relações que estabeleço, tenho como elemento o retorno, o feedback... Minha escolha de conectar as postagens com o facebook, tem relação direta com um público que conheço e que também reconheça nas relações a essência do ser, visto que conectam-se com amigos. Isto porque o exercício no qual me coloco tem haver com algo um tanto complexo,  tornar o contato com o sujeito ( algo que não afasta de consequências ) em algo mais simples, com um grande risco de cair numa obviedade descartável.
Venho aqui então informar e tecer alguma análise acerca dos cem acessos ao blog "porquefazeranálise".
Siiimmm !! Não foi sem, foram cem ! Reconheço que não sei bem o que este dado representa. Muito peculiar das quantificações. Mas, me fez pensar que os interessados tem então duas probabilidades de perfil : 1) Aqueles q acessam e lêem 2) Aqueles q acessam e não lêem. E, tanto a primeira quanto a segunda categorias praticamente não fazem comentários !
Análise do mês: cem acessos, sem comentários ! Aposto que se tu aí, caso estejas lendo em voz alta acaba deixando uma incógnita no ar.. ( rsrsrs ) Tratei de considerar também que enquanto internauta tenho acessos que não registro, pois fica uma naturalidade em passear, olhar, gostar e não gostar. Elementos estes que não encontro como efeito de escrever, pois aquilo que dispara este tem relação com algo não pronto, algo em construção e que pode ou não ter o sabor de passear, olhar, gostar ou não gostar. Algo de um encontro que vai tendo um contorno quase sempre sinuoso, pois há uma idéia inicial que norteia a escrita, mas que necessita do percurso para delinear o final de cada proposta.
Mas, em sabendo que há recursos no facebook de curtir, comentar, cutucar - considero que estou utilizando cada um deles prá dar este retorno. E, hoje no desfecho de Fevereiro e entrada nos momentos iniciais de Março tenho a lhes agradecer ! Porque prá quem acompanha as postagens, já sabe que neste tema "porquefazeranálise" há uma certa dose de desafio e de permitir ser escutado, escutar e escutar-se.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Qual teu plano de saúde ?

Dando continuidade ao presente exercício de articulação e discussão sobre questões da cultura, da clínica, do mercado de saúde, trago como questionamento: Qual  teu plano de saúde ?
Imagino qual tenha sido a conexão mental para esta pergunta e provávelmente venha ao nosso pensamento o nome do plano contratado com alguma empresa de saúde. Bem, pelo menos da maioría de nós, acredito que seja este o link imediato. Isto traz à tona, me parece, uma lógica inscrita no mercantilismo como sustentando nossa saúde. Um plano de saúde, na maioría das vezes, pensado como um contrato de prestação de serviços disponíveis mediante pagamento de mensalidade que estará, mês a mês, cobrindo eventual urgência. Plano que disponibiliza um leque de profissionais e exames, com ou sem possibilidade de internação hospitalar. Questões que ficam inscritas com muita habilidade pela publicidade destas empresas que ficam tomadas com a imagem de garantia e segurança diante de infortúnios ou dificuldades com a saúde da família. Há de estar sendo considerado, o quê isto que para alguns fica situado como sacramentado dever de sustentar tais pagamentos em prol da saúde, esteja sendo tomado como foco de entendimento? Imagino até que um certo incômodo fique instigado, caso apontarmos que talvez todo o esforço por ter a cobertura do plano da saúde paga, não seja o suficiente para usufruí-la. Nossa pergunta inicial que me parece muito interessante, em nenhum ou muito raras vezes, faz questão no momento de acordo entre contratantes e contratados, ou seja: Qual  teu plano de saúde ?
Bem, se a direção de pensar a saúde não se volta aos sujeitos, questionando-os sobre suas atitudes pessoais para com sua saúde no momento da contratação, como é que os planos empresariais tem tido tal procura como a garantia pela saúde ?  Talvez exatamente por algo velado se dar aí, um certo conchavo - tu me garantes que quando eu vier a precisar, tu me atendes com o que há de melhor na linha da ciência e suas descobertas, que eu te pago. Os nossos reais porquês, aqueles que não constam no contrato, talvez sejam os mais difíceis de nos depararmos. Assim, algo fica alienado numa lógica que não acessa o sujeito em cada um de nós, pagamos o que vier a nos faltar ( a saúde ). Ou seja, o questionamento aos sujeitos em nós em relação ao quê de nosso desejo continua em desacordo à algum possível plano pessoal de saúde fica velado. Há então um contrato que não está sustentado no sujeito que deseja, mas numa contratação de subsídios para quando a saúde lhe faltar. Questão que de uma certa maneira continuará a afastar de um questionamento e escuta indispensáveis para realmente pensarmos em prevenção, escutar a repetição,  a cronicidade de alguns quadros para direcionar interdisciplinarmente para uma aposta na cura, com a presença do sujeito no cliente do convênio ou no usuário do SUS. Desafios da atualidade com os quais possamos talvez conviver em planos de saúde futuros. Quem sabe ?!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Porquefazeranálise se o plano de saúde tem cobertura de consultas mensais ?

Porquefazeranálise se no convênio tem o profissional que atende uma vez por mês e dá receita de medicação ? Nesta trajetória de linkar questões sobre fazer ou não análise vamos percebendo que esta é uma escolha que vai na contramão da atual cultura de mercado. Há uma estrutura que encaminha as escolhas para a lógica de que a palavra está com a medicina, com o médico e não com o paciente. Questão que foi abordada por Sigmund Freud quando, no caso da histérica, em que a medicina não conseguia encaminhar para uma direção de cura, este lhe dá a palavra e alia a escuta do inconsciente, enquanto funda a Psicanálise. Teoria que exige em sua prática a sustentação em três eixos: análise, supervisão e estudo teórico daqueles que operam a escuta aos sujeitos em análise. Questões que deveríam ser mais consideradas pelos pacientes, analisandos, clientes ou usuários, visto que darão maior qualidade à seus tratamentos. Há no mercado algumas agruras que ocorrem seja por profissionais inescrupulosos que se autorizam a medicalizar todas as queixas dos pacientes, como por exemplo, médicos que sem reencaminhar para seus colegas psiquiatras indicam ansiolíticos, anti-depressivos sem avaliação  de saúde mental específica. E, há também os psiquiatras que sem ter formação em psicoterapia autorizam-se à acompanhar pacientes nesta linha de atendimento. Algo então de um acompanhamento que se dará com fundo egóico e desde uma posição de saber e prescritiva. Deixando claro também que há os profissionais que acabam por medicalizar seus pacientes por falta de estrutura de saúde pública ou privada, quando não há profissionais psi suficientes na rede de atendimento ou por esta lógica de atendimentos psi uma vez por mês dos planos de saúde. E, há também aqueles profissionais que com formação médica realizaram também a formação psicoterapêutica ou psicanalítica. Esclareço, pois percebo que muitas pessoas tem um desentendimento acerca destas questões de cunho ético. 
A questão que vem à baila quando alguém vier a desejar então fazeranálise é a procura à um convêrnio, ao plano de saúde que lhe informará, quase que na maioria dos convênios, que qualquer encaminhamento para atendimento psicoterápico tem cobertura de uma sessão mensal. Sustentação que durante o ano de 2010 foi conquistada através de aprovação de lei, mas sustentação ainda atada à lógica médica, visto que é na verdade a mesma que até então os psiquiatras tinham dos convênios. Bem, então ao ser equiparado à periodicidade que um psiquiatra tem, baseado em plano terapêutico em que o paciente leva consigo a tão utilizada prescrição medicamentosa, a linha de atendimento psicoterápico e psicanlítico ficam totalmente prejudicados. Além disto também, os psicólogos, psicanalistas e profissionais de demais especialidades ficam reféns do ato médico quando nestes convênios em sua maioría são exigidas indicação médica prévia.
Na medida em que desenrolamos este assunto fica claro que há algo na cultura, nas políticas de saúde que torna difícil não apenas a lógica de trabalho dos psicoterapeutas ou psicanalistas, mas principalmente retira do conveniado a possibilidade de escolha por algo de cunho preventivo. Ou seja, passar a abrir espaços semanais, paralelamente à intervenção médica quando necessária, que possibilitem às pessoas mudar a lógica de pensar seus males.