domingo, 17 de abril de 2011

O quê você acha: Seu corpo tem alma? A sua alma tem sido questionada sobre o seu corpo?


Desde minha última postagem tenho me envolvido com o tema que pretendo trazer para reflexão, num exercício que permita alteridade, além de instigar para uma forma outra de percepção dos males que afligem o humano, as doenças que preocupam na busca da cura. Busca esta que já foi comentada aqui anteriormente, acerca das escolhas da contemporaneidade em que o plano de saúde fica entendido através da sustentação de convênios. Aponto isto para chamar atenção para a forma como nos posicionamos diante das escolhas que fazemos para sustentar nossa saúde. Se estas tocam nossas escolhas, aquilo que fazemos no cotidiano ou não.

Percebo haver uma contratação velada, um contrato social e contemporâneo para que os sujeitos em nós fiquem intactos em prol do gozo de utilizar várias saídas, mas invariavelmente sem que atinjam uma escuta ao sujeito em cada um. Questões sempre complexas que ficarão postas aqui e que testarão aqueles que acompanham a leitura à questionar-se, mas também terão, pelo menos é o que tento daqui tornar simples, o tanto quanto possível algo que direcione para um avanço dos cuidados para com a saúde.

Durante este mês então, em que não publiquei no blog, fui buscar reduzir ou atiçar ainda mais minha ignorância. Brinco, pois realizei várias leituras e a pesquisa traz à tona múltiplas dúvidas e também achados, dependendo muito da posição de quem toma o assunto. O diálogo entre corpo e mente, já vem sendo objeto de estudos há milhares de anos em culturas diversas. E, percebo que a ciência por seus avanços tecnológicos seduz, numa promessa de cura pela decifração através da análise objetiva dos dados do corpo pesquisados. Porém a alma, a psique, a subjetividade do sujeito nos tratamentos fica na maior parte das vezes sem cuidados de escuta à sua discursividade. Negando a presença dos achados clínicos na escuta à estruturação da linguagem nos pacientes. Estes pacientes de tão “pacientes” que são não trazem questão, não “se” questionam, procuram outro, em geral um profissional que lhes responda através de objetividades.

Quando opto por aqui sacudir e chegar à alguma forma distinta de pensar, é porque optei por escutar minha subjetividade e o turbilhão de atravessamentos e emoções presentes no cotidiano da experiência do viver. Assim, a escolha de ter sustentado a própria análise e o estudo clínico através da leitura de profissionais que produziram achados clínicos específicos da história de sujeitos que acompanharam em análise, é que hoje aponto a diferença de porquefazeranálise. Situadas então minhas balizas proponho que realizar a escuta de pessoas com doenças presentes intergeracionalmente nas famílias, as ditas doenças cronificadas que repetem alguns sintomas ao longo de vários anos, são material para escuta analítica. Porém, o que encontro na literatura pesquisada vem responder o porquê deste perfil de pessoas não chegar ao analista.

Roger Wartel(1990) lança a pergunta “Que esperam de nós os médicos?” tendo em vista que a psicossomática ficaria associada àqueles casos rebeldes à etiologia, quando não haveria explicação para a lesão de determinado órgão. Assim, o médico estaria numa posição de não esperar nada nesta posição. E o paciente, a pessoa acometida de doença em algum órgão, também não tendo uma explicação plausível da etiologia não pediria nada ao analista. Assim, a hilária ou trágica situação que se daria então é que tanto médicos, quanto pacientes “onde eles nos esperam, isto é, no lugar onde eles não sabem nem o que esperar”. Wartel(1990) ainda coloca que deveríamos então endossar essa fraqueza irredutível da não-resposta, enquanto uma posição ética. Ou seja, posicionarmo-nos eticamente de que há uma não-resposta nossa. Porém, há a possibilidade colocada por Alain Merlet (1990)“não sendo mais uma questão de situar a psicossomática como uma doença, mas como um modo de responder que derroga à ética que o dispositivo analítico em princípio deve lembrar àquele que fala, sobre um divã.”

Wartel retoma Fiessenger de 1908 através de um enunciado que esclarece de uma forma simples que “o doente não defende mais seu fígado: defende-se de seu fígado”. Algo que particularmente me deixa surpresa, ou seja, algo do órgão se volta contra a pessoa acometida da doença. Mas, me faz escutar que algo se contrapõe, quando a “defesa à” inerente ao órgão que auxilia a homeostase do corpo, se transforma colocando o corpo a “defender-se deste”, tomado num funcionamento que leva à uma destruição do órgão. Algo sutil aí de uma mudança de fronteira! Um órgão até então tido como funcionando a favor da vida, testemunha no corpo uma passagem em que opera algo da morte, como nos casos extremos como o câncer. Ou, o comer que seria para sustentar a vida, e passa a levar alguns à morbidade quando não há reconhecimento de limites em sua ingesta.

No trabalho que venho realizando a alguns anos de escuta à pessoas diagnosticadas de obesidade severa ou mórbida, enquanto que realizam tratamentos com técnicas mais ou menos invasivas do corpo, percebo que em seu discurso se desdobra inicialmente algo que inscreve literalmente o alimento como desejo e necessidade. Há uma confusão em relação à se a fome que sentem é por necessidade fisiológica ou por desejo de repetição de algo que os captura por haver ali algo de outra ordem. Algo de uma demarcação de passagem de afetividade que acompanha o alimento, ou ainda, o alimento marca a passagem afetiva ao outro nas relações que este estabelece. Merlet (1990) recorta uma explicação de Lacan quando este diz de uma “fixação do gozo pela interferência de uma necessidade sobre o desejo, isto seria como uma espécie de curto-circuito corpo-organismo no ponto de não clivagem”. E, nesta mescla indeterminada necessidade ou desejo de comer, o órgão passaria a não determinar deveres. Entendo com isto que a fome, por exemplo, não tem o dever de ficar saciada, visto que está arraigada a um desejo não castrado.

Recordo de uma filmagem realizada pelo Lydia Coriat e utilizada em um dos grupos de estudos de psicossomática do qual participo já há alguns anos. Momento em que todos presentes sentiram-se muito angustiados quando uma mãe que se mostrava muito preocupada em bem realizar os cuidados para com seu filho, porém não conseguia decifrar os sinais de limite que este lhe passava. A criança tinha talvez não mais de um aninho de idade, estava sentada numa cadeirinha própria e tinha colocado à sua frente um prato transbordante de sopa ou lentilhas. A medida que a mãe o alimentava, mostrando-se muito preocupada em cumprir esta tarefa materna, ao escutá-lo emitindo sons e girando seu rostinho para desviar da colher, passa a referir que ele não seja mau e que coma tudo. Após, conseguir então dar ao filho mais da metade de uma super porção para adulto, sem acolher os sinais deste como já estar satisfeito, lhe oferece ainda uma mamadeira, dando a entender que “se não comeu “tudo” ( da porção de um adulto ) foi porque talvez não tenha apreciado o prato, e assim a mamadeira cairia bem para que se sentisse satisfeito.

Paralelamente à escuta de adultos obesos mórbidos, cronificados por uma ingesta excessiva se comparada às suas necessidades fisiológicas, visível pela massa de seus corpos que excede sempre suas necessidades energéticas, referiam que o estômago tem de ficar cheio para que a satisfação dê-lhes o sinal de parar. Prováveis memórias do infans, marcados por cuidadores que não tinham a capacidade de alimentá-los marcando-lhes seus próprios limites. A satisfação ficava marcada, igualada à um comer tudo que o adulto supunha ser o suficiente e não em terem lidos seus sinais infantis e sutis - visto que os bebês ainda não tem a apropriação da palavra. A saciedade da fome fica referenciada ao quê e à quanto satisfazia o adulto.

Françoise Josselin (1990) refere Lacan no que este diz do efeito psicossomático “o corpo é levado a escrever alguma coisa da ordem do número” e refere haver a necessidade de abordar a psicossomática pela revelação do gozo específico que há nessa fixação. Ou seja, uma alienação que impeliria o sujeito a tomar esse lugar do objeto a, o objeto causa de desejo, o fora de corpo de Outro. E, nos fenômenos psicossomáticos o objeto a não emergiria, aparecendo sob forma incrustada no corpo, no órgão atestando uma gelificação do significante.

Jean Guir (1990 ) menciona a conferência de Genebra em que Lacan compara o doente com fenômeno psicossomático a um hieróglifo e associa a lesão psicossomática ao traço unário. O traço unário como na origem de um saber sobre o corpo. Guir ainda situa o narcisismo primário e o auto-erotismo caracterizando o fenômeno psicossomático. Quando o masoquismo originário estaria como um componente da libido, mantendo sempre como objeto o corpo próprio do indivíduo. A pulsão de cura se chocaria com o masoquismo primordial. Aí novamente algo que se organiza contrário ao sujeito, uma resistência que Lacan faz lembrar de que “a vida não quer sarar”. E a reação terapêutica, mais especificamente a reação terapêutica negativa, fundaria sobre a necessidade de punição por uma potência parental. E, Guir finaliza “Essa marca do sujeito poderá, na análise, ser objeto de um relance transferencial”.

Uma incógnita que se faz presente nestes processos de pré-ocupação com a saúde, gira em torno de uma questão simples e complexa que me chama atenção : “O que faz com que a pessoa se sinta mais segura recorrendo à uma cirurgia, corte no real, à aliar à busca de cura a abertura de espaço para ter a escuta de alguém que lhe permita transitar por sua história e tecer alguma compreensão do porquê de uma doença lhe atingir algum órgão?” A visão de que a pessoa desenvolve algo em seu corpo onde uma função, uma funcionalidade fica negada, não faz questão. Por que o corpo passou a produzir a doença diagnosticada? Assim, pensar em porque há algo que se desenvolve em si a partir de sua história inter e intra-familiar é posto num saco sem fundo, na justificativa de que é genético. Escape que nos salva de abordar o quê pode haver em nosso posicionamento que faça com que o corpo desenvolva aquilo que talvez outro familiar não tenha sido depositário e que não fica relevado. Ou, talvez até fique como questão, porém levado para o médico que explica e responde com a representação de seu discurso, que não poderia ser outro, visto que se apóia na ciência, objetivando os achados científicos. Que por vezes ficam justificados naquele saco sem fundo da genética. Dupla negação, do paciente e do médico, de que alguém possa acompanhar o paciente a ouvir-se e à suas escolhas, às representações que tem de si.

A posição ética do psicanalista é mencionar então que há uma não-resposta em sua posição, o que não quer dizer que não há possibilidade de tratamento e sim de que fica posta uma abertura de escutar ao paciente e suas associações, para tecer como à uma colcha, a partir do fio da fala deste, para alcançar a constituição de seus entendimentos acerca de si e valoração de sua história. Ponto que fica acolhido pela medicina também, mas não há na devolução do médico a técnica da escuta ao sujeito, o médico escuta o paciente para curar a doença do corpo. E, a alma fica abandonada, sem ser questionada do quê sabe sobre o funcionamento de seu corpo, sempre envolto em relacionamentos e emoções diárias singulares e que ficam em geral negadas nestes tratamentos da atualidade.

E, então, o que você tem a dizer: Seu corpo tem alma? Entre os seus familiares as doenças do corpo são questionadas à alma? O quê você sentiu enquanto uma doença se instalou em algum familiar ou mesmo em você? Quais emoções associadas estão aí, que emoções emergiram ou sumiram com o diagnóstico de uma doença recorrente na família e que pode ficar ativada em seu corpo ou de algum familiar? Talvez aqueles que se ocupem com estas questões, a serem também escutadas no sujeito em cada um, sendo aliadas aos tratamentos tradicionais ou aos tratamentos de medicina integrada, tenham resultados mais qualitativos na recuperação do saber sobre si e sobre a doença em direção à cura almejada.

Blog: porquefazeranálise



Referência Bibliográfica:



Wartel, Roger e outros. Psicossomática e Psicanálise. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, RJ, 1990.

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